//Conjunto habitacional está com obras paradas há mais de um ano no Recife

Conjunto habitacional está com obras paradas há mais de um ano no Recife

O Conjunto Habitacional Vila Brasil 1, na Ilha Joana Bezerra, área central do Recife, está com as obras paradas há quase um ano e meio. Os quatro blocos, que começaram a ser construídos em 2010 e já deveriam estar abrigando 128 famílias que hoje vivem em palafitas, sofrem o desgaste do tempo e do abandono.

A reportagem da TV Globo esteve no local durante dois dias neste mês de janeiro e encontrou uma série de problemas. Rachaduras, mato alto, cerâmicas e pias quebradas, pintura danificada, paredes derrubadas e buracos no teto. Em meio a uma explosão dos casos de chikungunya, zika e dengue em Pernambuco, o poder público joga contra: uma cisterna aberta é foco de criação e reprodução do mosquito Aedes aegypti.

Na manhã desta terça-feira (12), em torno de 100 famílias ocuparam o local e trancaram o portão. De acordo com o coordenador da ocupação, Eraldo Lira, o grupo é composto de pessoas sem teto que cobram a inclusão em programas habitacionais do município. Duas viaturas da Polícia Militar e cinco da Guarda Municipal foram enviadas ao conjunto habitacional. A PM está na frente do imóvel para evitar a entrada de novas famílias.

O Vila Brasil fica num terreno de 6 mil metros quadrados. É uma promessa de 2006, que atravessou a gestão de três prefeitos diferentes e ainda não ficou pronto. Há um ano e meio a obra está paralisada. Não há operários nem sequer um vigilante por lá. Nos dias 4 e 5 deste mês, a guarita estava vazia e o portão, aberto. No segundo dia, a reportagem flagrou dois homens deixando o terreno com uma carroça com areia. Do lado de dentro, são muitos os sinais de destruição.

José Vitalino é um dos moradores das palafitas que aguarda a conclusão das obras (Foto: Wagner Sarmento / TV Globo)José Vitalino é um dos moradores das palafitas que aguarda a conclusão das obras
(Foto: Wagner Sarmento / TV Globo)

Na área externa, o mato cresce e serve de refeição a um cavalo. Os entulhos são muitos. Restos de construção, madeiras, tonéis, latas de tinta, capacetes, roupas e mais de 10 carros-de-mão enferrujados. Dos quatro blocos, o A é o que está mais adiantado. Paredes foram pintadas e cerâmicas, colocadas. O esquecimento, no entanto, deixou sequelas. Muitos apartamentos estão deteriorados, com pias quebradas, pinturas danificadas, louças destruídas e até pisos afundados. São dezenas de buracos no teto das unidades habitacionais.

Em meio aos entulhos, há fardas da empresa DHF Engenharia, contratada pela Prefeitura do Recife para executar a obra, e um punhado de documentos, como o Plano de Locação e Coberta do Conjunto Habitacional Vila Brasil 1 e várias folhas de ponto. Uma delas, datada de março de 2015, está em branco. Sinal de que, desde então, não se vê trabalho por lá.

No pátio do bloco A, uma cisterna destampada é criadouro do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika vírus e febre chikungunya, que tiveram somados 24.558 casos prováveis no ano passado. Um foco em ebulição vizinho ao Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, onde diariamente circulam milhares de pessoas.

Nos blocos B, C e D, o atraso nas obras é ainda maior. Falta acabamento em todos eles. Algumas paredes têm rachaduras. Nos andares de cima, colunas e vergalhões descobertos estão enferrujados. Muitos apartamentos têm móveis velhos e, num deles, há até um pôster do Sport afixado na parede, sinal de que o habitacional sofre com invasões. Parte do muro que divide o Vila Brasil 1 do terreno onde será erguido o Vila Brasil 2 foi derrubada.

Enquanto isso, do outro lado do rio, dezenas de famílias alimentam uma espera inglória. É gente que vive em condições precárias, nas palafitas fincadas às margens do Capibaribe. Mãe de três filhos, a dona de casa Cibele Cristine dos Santos não aguenta mais a vida no barraco de madeira. Todo mundo em casa pegou chikungunya. “Está tudo parado lá e a gente aqui vivendo com rato, barata, muriçoca… Até essa chikungunya a gente pegou. É triste. Todo dia eu oro a Deus para ali resolver logo e a gente sair daqui”, conta ela, que lava roupa numa bacia ao lado de um esgoto que corre a céu aberto.

Na palafita ao lado, a precariedade em seu extremo. A maré alta e a chuva derrubaram a parede do barraco do aposentado José Vitalino da Silva. Agora, a cama onde dorme tem vista para o rio. E para o perigo. Sem perder o bom humor, ele afirma que sua casa tem nome: “É a toca do guaiamum”. “Há mais de seis anos estamos esperando. Sou cadastrado e não vejo a hora de sair dessa situação”, diz ele.

Respostas
Procurada pela reportagem, a prefeitura se manifestou por meio de nota. De acordo com a Secretaria de Habitação do Recife, “as obras do Vila Brasil 1 foram paralisadas em agosto do ano passado devido à necessidade de adequação financeira junto à construtora responsável”, no caso a DHF Engenharia.

“Essa adequação vai incluir todas as etapas necessárias para conclusão do projeto, sem necessidade de acréscimo devido a algum tipo de desgaste provocado pela paralisação”, acrescenta o comunicado. Segundo a pasta, 50% dos trabalhos já foram realizados e, assim que for retomada, a obra será entregue em oito meses. A PCR, porém, não deu prazo para o reinício das obras.

A DHF Engenharia, por outro lado, alega que interrompeu os serviços porque, desde maio de 2014, não recebe o dinheiro que deveria ser pago pela prefeitura.

Sobre a denúncia de furtos no local, a nota informa que a Guarda Municipal faz rondas periódicas na região. Já em relação ao criadouro de Aedes aegypti encontrado pela reportagem em um dos blocos, a Secretaria Municipal de Saúde enviou nota afirmando que o Vila Brasil “é considerado ponto estratégico, sendo monitorado pelas equipes a cada 15 dias”. De acordo com a pasta, os agentes de saúde ambiental e controle de endemias estiveram no local no último dia 7, dois dias depois da presença da TV Globo, “e realizaram a eliminação mecânica dos focos do mosquito”. (Via: G1)

Site: Guia Pernambuco